sábado, fevereiro 24, 2007

Uma história para o TSE

Sebastião Nery, Tribuna da Imprensa

Em 1990, primeiro ano do governo Collor, travava-se em Alagoas uma briga de punhal em quarto escuro. Renan Calheiros, líder do governo na Câmara, saiu candidato a governador. Parecia imbatível.

Os usineiros não confiavam em Renan, então no oficial PRN, mas vindo do movimento estudantil no clandestino PC do B, depois deputado estadual pelo MDB e federal pelo PMDB. Começaram a articular a candidatura do confiável Geraldo Bulhões, que vinha da Arena e do PDS e estava no PMDB.

Mas o PMDB de Alagoas, liderado pelo bravos deputados José Costa e Djalma Falcão, lhe negava a legenda para disputar o governo do Estado. Para cumprir os prazos da Justiça Eleitoral, era preciso arranjar, e urgente, mesmo que fosse necessário comprar, uma legenda disponível para inscrever Bulhões a tempo. Depois, poderia ir para um partido melhor. Ou menos pior.

Renan
Era um partideco nanico, mas de nome bonito. A direção nacional ficava em Brasília. Mandaram emissários, fizeram os primeiros contatos, tudo combinado. Mas, para fechar o negócio, era dinheiro na mão e dinheiro vivo.

Dois poderosos usineiros entraram em um jatinho em Maceió, com dois advogados, e foram para Brasília. Aliás, Taguatinga. Lá morava o dono do partido. E tinha que ser só com ele, na casa dele. Pagou, levou a legenda.

Mas, quanto ele ia cobrar? O vendedor de partido não se abria. Não dizia quanto queria. Alegava que as contas tinham que ser feitas na hora, na presença dos compradores. Acostumados a grandes tacadas, com receio de perderem a viagem e o prazo, os usineiros enfiaram 100 mil dólares em duas maletas de mão, desceram à noite em Brasília, seguiram para Taguatinga.

Bulhões
O homem, gorducho, sorridente, os recebeu na maior tranqüilidade. Já estava íntimo do pecado. Ofereceu uísque, não aceitaram, serviu cafezinho. E, sobre uma mesa larga, pilhas de folhetos, pastas, papéis. Abriu o jogo:

- Vejam ali. Os senhores sabem, fazer partido custa muito trabalho e despesa. O Tribunal Superior Eleitoral é muito chato, são vários estados, todo tipo de exigências. Levamos anos para ter o partido em ordem, nos trincos. Não quero dinheiro para mim e nem mesmo para o partido. Preciso apenas que os senhores paguem todas as despesas que tivemos até aqui. O resto é comigo.

O usineiro mais velho já estava suando, aflito com aquela conversa. Se o homem pedisse um absurdo, não iriam aceitar e ainda perderiam a viagem:

- Quanto é que dá tudo?

- 5 mil dólares. Só 5 mil dólares. E em dólares.

TSE
O velho usineiro quase pôs tudo a perder. Deu um suspiro longo, abriu a maleta, pegou 5 pacotinhos de mil dólares em notas de 100 dólares, e pôs em cima da mesa. O homem pegou, apalpou carinhosamente um por um, nem contou. E marcou encontro com os advogados em Brasília, dia seguinte cedo.

Os usineiros se despediram rápido, entraram em silêncio no carro (carro e motorista de um amigo), deixaram os advogados no hotel e foram para o jatinho, que os esperava pronto para voar. Lá dentro, o mais velho desabafou:

- Que filho da puta! Eu pensando que os 100 mil dólares podiam não dar. Me preparei para pechinchar e ver se ele fechava o negócio por 50 mil. E ele pede só 5 mil! Esse tipo de gente desmoraliza qualquer bom negócio.

Os 95 mil dólares que sobraram, ainda gastaram contra Renan. Agora, o TSE dá dinheiro aos nanicos. Deviam conversar com os usineiros de Alagoas.

São Francisco
Essa enchente do São Francisco, que vi começando engrossar no mês passado, nas belas barrancas, já quase na foz, dos lados de Bahia e Pernambuco, Alagoas e Sergipe, é mais uma prova de que a conversa de o rio secar é marola de grandes empresários de Minas, Bahia, Pernambuco, Sergipe, Alagoas, que acham que o rio é propriedade deles.

É claro que neste começo de ano está havendo um volume de água excepcional, fora do normal. Não vale como argumento para uma média. Mas quem já viu Paulo Afonso, Sobradinho, Xingó, as grandes barragens, sabe que a média anual de água no rio, na maior parte do ano, é de grandes sobras.

Ciro e Geddel
O problema é que muitos empresários brasileiros, como dizia o gordo e sábio baiano Otavio Mangabeira, perdem 100 para o vizinho não ganhar 10. Os grandes projetos de irrigação, que fizeram nascer uma nova agricultura às margens do rio, querem a água destinada exclusivamente a eles.

E jamais ficarão sem água, porque o rio é perene. O governo está anunciando que, depois do carnaval, vai começar as obras de transposição de uma parcela minúscula, ridícula, das águas do rio, já perto de caírem no mar, para as regiões mais secas e miseráveis de Pernambuco, Paraíba, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte. Vamos ver se o governo vai mesmo resistir aos poderosos interesses, que há mais de um século sempre impediram a obra.

Ciro Gomes lutou, preparou tudo. Provou que distribuir 2,5% da água, já perto de cair no mar, não ameaça o rio nem ninguém. O próximo ministro deve ser o baiano Geddel. Terá coragem de enfrentar ACM e os outros jacarés?