sábado, fevereiro 24, 2007

Olhos abertos

Mauro Santayana, Coisas da Política, Jornal do Brasil

O interesse de alguns leitores pela coluna de segunda-feira passada (O que é nosso) confirma que o problema da Amazônia, objeto de excelente série de reportagens, deste Jornal do Brasil, está mobilizando a opinião pública nacional. A maior parcela do sistema amazônico é nossa. Mas, desde a Independência, temos nos confrontado com a cobiça estrangeira - principalmente dos Estados Unidos - sobre os imensos recursos da área.

Tão logo os norte-americanos completaram a conquista do Oeste - com a incorporação da Califórnia e a anexação do Texas (1850) obtidas na Guerra contra o México - passaram a ampliar sua ambição de conquista a todo o hemisfério. Em 1862, em nome do governo norte-americano, o general James Weber solicitou de dom Pedro II autorização para assentar negros na Amazônia. Quatro anos depois, Washington reiterava o pedido, felizmente não concedido. Bem antes, os norte-americanos pleitearam a livre navegação nos rios do Vale, e tiveram, para isso, o apoio de um conhecido político brasileiro, Tavares Bastos.

A pressão para a abertura dos rios (em nome do interesse científico) vinha desde 1843. Em 1852, os Estados Unidos assinaram acordo com o Peru, que lhes abria os portos fluviais - em suma, o acesso ao território brasileiro pelo Pacífico. O acordo estendia aos Estados Unidos a vigência de tratado, assinado antes com o Brasil, que reconhecia aos peruanos o caminho fluvial para o Atlântico pelo Amazonas. Em seguida, os ianques obtinham dos bolivianos licença para cursar os rios Madeira e Mamoré, sem que o Brasil fosse ouvido.

O governo brasileiro resistiu a essas investidas, até que elas amainassem. Sabiamente, a nossa diplomacia evitou um tratado bilateral, que implicaria obrigações internacionais bem definidas. A livre navegação sobre os rios amazônicos foi permitida mediante simples decreto do imperador, em 1866, que, em tese, poderia ser revogado depois.

Mas as tentativas continuaram. Utilizando a Bolívia, e com o apoio do presidente Theodore Roosevelt, os americanos criaram o Bolivian Syndicate, cujo objetivo final era o de criar um Estado independente na região. Esse plano só foi impedido graças à bravura do gaúcho Plácido de Castro e à inteligência política do Barão do Rio Branco.

Hoje, contingentes norte-americanos estacionam em países fronteiriços ao Brasil, e eles se valem, com o apoio de alguns europeus, do pretexto ecológico para a internacionalização da Amazônia. Mas esses cruzados não pensam em ocupar a China, a fim de obrigá-la a restringir suas emissões de carbono na atmosfera. Tampouco pensam em ocupar as tundras e as taigas da Sibéria, que constituem o mais extenso ecossistema planetário (13 milhões de quilômetros quadrados), tão importante para o mundo quanto o do cerrado e da floresta tropical brasileira. Os russos, mesmo depois de abatido o Muro de Berlim, continuam com mísseis suficientes para desencorajar os aventureiros - e os chineses também dispõem de armas nucleares para os dissuadir.

Podemos ser gratos aos que, com fraternas intenções, pensam em nos ajudar na Amazônia, mas é bom dispensar os seus serviços. É urgente impedir o saqueio da biodiversidade, dos diamantes, do ouro e dos minerais raros, como o nióbio e o urânio - e proibir a ação de antropólogos e missionários que pregam abertamente a "independência" de povos indígenas, como os ianômamis. Façamos um esforço nacional para a ocupação, rápida, manu militari, se for necessário, dos pontos estratégicos da região. Não há tempo a perder. A justiça não socorre os que dormem, diz a máxima latina. É hora de abrir os olhos - e afiar a ponta dos dardos.