quinta-feira, maio 31, 2007

Um sistema falido e podre

Carlos Chagas, Tribuna da Imprensa

Libertado na madrugada de ontem, Zuleido Veras foi o último dos 46 envolvidos no escândalo da Operação Navalha a deixar a prisão da Polícia Federal. Razões jurídicas terá tido o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, para a soltura. Mas não será também política a maior corte nacional de Justiça?
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Sem dúvida que sim, até por se tratar da intérprete maior da Constituição Federal. Não haveria razões políticas para o ladravaz e seus asseclas serem mantidos atrás das grades? Também é certo que sim. Basta sair às ruas e consultar o jornaleiro, o padeiro, o motorista de táxi ou o colega de trabalho. Não há quem concorde com as concessões legais feitas pelo vice-presidente do STF.
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Porque em qualquer primeira instância judicial, apenas ontem, quantos relaxamentos de prisão preventiva foram negados? Impossível calcular, mas o ladrão de galinhas, o assaltante bissexto e o agressor destemperado continuarão na cela da delegacia de polícia, candidatos certos a penas que os levarão às universidades do crime expressas pelas diversas penitenciárias.
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Já o chefão de mais uma quadrilha de poderosos, desbaratada pela Polícia Federal, pôde ser fotografado deixando a carceragem de Brasília como se estivesse saindo de um restaurante de luxo. Está livre para reunir-se com os companheiros de fraude e traçar estratégias para uma defesa comum, calcada em todo o tipo de negativas.
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Não há, no país inteiro, um só cidadão capaz de imaginar que a Justiça condenará o Zuleido e seus comparsas, pelo menos nos próximos quinze anos, prazo mínimo para tramitarem todos os recursos a que terá direito num processo criminal. Quanto a devolver o dinheiro roubado, nem pensar. O mais provável é que, em substituição à Gautama, surja outra empreiteira dedicada às mesas atividades, quem sabe a Sidarta ou a Buda.
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São coisas do Brasil, melhor dizendo, características de um sistema falido e podre, que faz da impunidade sua grande bandeira. Impunidade, é claro, para os ladrões poderosos, integrantes das elites.
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Termômetro desiludido –
A imagem foi usada dias atrás, mas merece ser repetida. Não se pode culpar o termômetro por conta da febre. Mas é assim que as coisas se desenvolvem, pois a Polícia Federal continua sob fogo batido, atacada por setores do Legislativo, do Judiciário e até do Executivo pelo fato de ter cumprido seu dever, investigando e prendendo ladrões dos dinheiros públicos. Registra-se na cúpula e nas bases da Polícia Federal uma profunda desilusão pelo desfecho da Operação Navalha, agora quase que totalmente entregue à Justiça. Afinal, de dezenas de operações semelhantes, quantos bandidos se encontram presos ou, pior ainda, condenados?
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Nenhum. Tomara que a corporação encontre ânimo e oxigênio para continuar atuando, sem esmorecer. O futuro far-lhe-á justiça, ainda que a própria não venha colaborando muito para esse fim...
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Sibá Machado –
Empossado ontem como presidente do Conselho de Ética do Senado, Sibá Machado deu mostras de como se comportará na função. Depois de proclamada sua eleição, deu a palavra a quantos companheiros a tivessem requerido, para elogiá-lo, mas, em seguida, encerrou a sessão. Outra, só na próxima semana. Seria de se esperar a imediata menção à crise que envolve o Senado e seu presidente, Renan Calheiros, mesmo sem a manifestação do corregedor da casa, senador Romeu Tuma. Uma representação do Psol já tinha sido apresentada, o mínimo a aguardar seria sua referência pelo novo presidente do Conselho de Ética. Quem sabe até a designação de um relator. Porque o maior interessado na tramitação rápida do processo é o próprio Renan Calheiros, ciente de que quanto mais a questão se prolongar, maior será o desgaste de sua imagem.
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Enfim, a próxima semana não demora tanto assim.