terça-feira, dezembro 19, 2006

Caiu a ficha

Kennedy Alencar, na Folha Online
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Logo depois de ser reeleito, em 29 de outubro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva teve uma "recaída voluntarista", nas palavras de um ministro. Falou em manutenção do rigor fiscal, mas também sinalizou que poderia afrouxar as contas públicas para forçar um crescimento maior da economia.
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Nos últimos dias, "a ficha caiu", disse outro auxiliar, referindo-se à reavaliação que Lula fizera a respeito da tentação de encontrar alguma mágica econômica.
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É uma boa notícia. O presidente errou ao se comprometer com uma meta de crescimento de 5% do PIB (Produto Interno Bruto, a soma de todas as riquezas produzidas no país em um ano). Assumiu o número como o objetivo de 2007 e dos demais anos do seu segundo mandato porque uma crítica da oposição o incomodou muito na campanha eleitoral: o Brasil cresce menos do que os países emergentes num cenário de bonança da economia global.
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Sentindo-se "vingado" por uma vitória significativa no segundo turno, Lula foi às bravatas, mas depois teve de se encontrar com a senhora realidade.
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A crise da aviação mostrou ao presidente que os gargalos de infra-estrutura são maiores do que imaginava. Não basta diminuir juros para o maior crescimento se materializar - ajuda, mas não basta. Enfim, por uma série de razões que é de conhecimento de quem acompanhou as últimas colunas, crescer 5% em 2007 era uma meta muito difícil de se concretizar.
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Obviamente, cabe a um presidente estimular e esbanjar otimismo. Se o primeiro mandatário de um país faz um discurso desanimador, claro que isso tem reflexos políticos e econômicos negativos. Vender ilusões, porém, é tão inadequado quanto. Além de politicamente perigoso.
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Nos bastidores, Lula desembarcou dos 5% e passou a desejar um crescimento de 4% do PIB em 2007. Será difícil, mas não impossível. E ele provavelmente evitará se comprometer com uma taxa específica.
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O presidente tem reavaliado o tom do pacote econômico que deve anunciar na semana que vem. Não será algo que deva satisfazer os defensores do fim da era Palocci, mas tende a ser um passo importante para o Brasil crescer mais do que os 3% previstos para 2006.
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Doces sonhos
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Tarso Genro (Relações Institucionais) foi dormir na quinta-feira (14/12) ministro da Justiça do segundo mandato.
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Descrédito total
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Parlamentares devem ganhar bem, especialmente para que tenham independência financeira e se vacinem contra os lobbies que infestam o Congresso. Mas elevar numa tacada seus salários de R$ 12.847,20 para R$ 24.500 é de uma insensibilidade política que poucas vezes se viu em Brasília nos últimos anos.
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Vai sair caro
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A opinião pública não deverá aceitar a decisão passivamente. Teria sido melhor, como sugerido por alguns deputados, um reajuste que levasse em conta o que os servidores públicos obtiveram nos últimos quatro anos.
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Do jeito que a coisa foi feita, soou a assalto aos cofres públicos, sobretudo numa hora em que se discute corte de gastos como precondição para um maior crescimento da economia.