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Os meteorologistas nos avisaram que esta primavera e início de verão seriam molhados. Pensei que se referissem às chuvas, mas parece que mais que as águas que vêm do céu, o que vai molhar nosso gigante deitado em berço esplêndido são mesmo as nossas lágrimas.
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Comecemos com as lágrimas do Presidente da República. Em sua segunda diplomação no cargo, ontem, ele se emocionou ao mencionar o eleitorado que, segundo ele, não precisou de intermediários para nele votar. Por que será então que o PT gastou a fortuna que gastou na campanha, se não era necessário nada além de um Aerolula e de um palanque em cada cidade visitada? O Presidente, depois de eleito, menospreza o papel do partido que o sustentou; nada é necessário como canal entre ele e seus adoradores.
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Pretende utilizar uma ligação direta entre ele e a sociedade, uma espécie de gato-Lula. Nessa ligação direta, ele vai prescindir só do partido ou da Imprensa também? Será que o voto será necessário? Ou a aclamação será o suficiente? Engraçado é ele chorar e todos se emocionarem com suas lágrimas. Vimos a Ministra Dilma, a guerrilheira, enxugando uma lágrima com a mão. Foi bonita a cena, pá, como diriam nossos amigos d’ além mar, muito bonita.
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Foi nos dito à exaustão que ou o país apertava o cinto e se comportava muito bem, ou não conseguiríamos sair do impasse em que estamos, dessa mediocridade na qual chafurdamos. Estávamos todos esperando o plano que o presidente exigiu de seus colaboradores, plano que nos levaria a um progresso maravilhoso do ano que vem em diante, já que este se encerrou em 29 de outubro p.p.
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As providências tomadas até agora foram as seguintes: salário mínimo, fixado em R$375,00, para não quebrar nem a Previdência, nem as empresas públicas, nem as empresas privadas; os senhores parlamentares legislaram em causa própria e aumentaram seus salários. A partir de 1º de fevereiro de 2007, passarão a receber R$24.500,00, mais os penduricalhos de sempre. Tudo somado, dá perto de 100 mil por mês. Trabalham – quer dizer, reúnem-se no Congresso - 3 (três) dias por semana. Têm férias dobradas.
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Esse reajuste de 91% é uma bofetada na cara dos brasileiros, sobretudo dos beneficiários do Bolsa-Família e daqueles que vivem com um salário mínimo. Justamente o povo humilde que o presidente pretende cativar durante seu segundo mandato. Mas é surpresa? Não. Quem acompanha o noticiário e viu a pequena fortuna gasta pelos candidatos em suas campanhas, não pode estar surpreso, ou alguém sonhava em ter um Parlamento repleto de 573 beneméritos, patriotas dispostos a se sacrificar pelo país?
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A eleição para a presidência das duas Casas do Congresso está assim garantida e o sossego do Presidente Lula também. Grande viajante, poderá se ausentar do país tranqüilamente. O barco ficará em boas mãos, e mãos bem tratadas, muito bem tratadas.
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Mas essas não foram as únicas providências. Corre no Congresso um projeto de lei que visa novo aumento para os juízes do STF; se for aprovado, esses 11 senhores e senhoras passarão a receber mensalmente 27.500,00 reais. Como nossos parlamentares tomaram o cuidado de explicitar que seus salários de fevereiro em diante serão iguais aos dos membros do STF...
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Será só isso? Qual o que! E os Deputados Estaduais? E os Vereadores? E os membros do Ministério Público? A cascata vai virar uma cachoeira. Que digo? Vai virar um fenômeno do tamanho e da magnitude das Cataratas de Iguaçu. .E o Presidente ainda ousa dizer que nós perdemos o senso de humor? Ainda se queixa de ser perseguido pela imprensa, de ser vítima de preconceito? Nós somos é um povo muito bom, muito tolerante e muito paciente.
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Antes de terminar quero esclarecer que ao contrário do que diz o Presidente Lula, não gostamos de más notícias. Preferimos as boas. Ele que produza boas notícias, para nossa alegria e para que não choremos convulsivamente. Lembro-me de uma cena dantesca: o Presidente João Batista Figueiredo, num dos raros momentos em que andou pelas ruas, foi abordado por um menino que lhe perguntou o que ele faria se tivesse apenas um salário mínimo para viver, tal qual seu pai. Resposta do general, rude, mas franco: “Dava um tiro na cachola”. .Ontem, aqui no Blog, um de meus comentaristas favoritos, pela lógica, bom senso e bom humor, M. Rosa, postou, às 23:41, o que parece ser a única saída que nos resta: “Vamos tirar o pretinho básico e o terno preto para tomar ar; a hora é de luto”.
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Luto, sim. E não me venham com a cantilena barata que o luto é devido ao fato de Geraldo Alckmin ter perdido as eleições: o processo eleitoral é assunto encerrado, ponto (mas não a prestação de contas, bem entendido...). O problema, no entanto, é o fato do vencedor ainda estar no palanque e da claque não ter se apercebido que nós é que vamos chorar muito, de 1º de janeiro de 2007 em diante.